terça-feira, 12 de maio de 2026

A FORMAÇÃO TERRITORIAL DO BRASIL SOB A PERSPECTIVA DA HISTÓRIA AMBIENTAL E DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Bread Soares Estevam1

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2121-1435

LATTES: http://lattes.cnpq.br/7304749861718939


RESUMO


Este artigo analisa a formação territorial do Brasil a partir da interseção entre a História Ambiental e a Educação Ambiental, buscando compreender os processos históricos, sociais e ambientais que moldaram o atual território brasileiro. Por meio de uma revisão crítica da literatura geográfica, histórica e ambiental, o estudo destaca como as práticas socioambientais e as políticas territoriais influenciaram a territorialidade brasileira e suas implicações no âmbito educativo. A metodologia combinou análise documental e interpretação qualitativa de fontes secundárias, aprofundando o entendimento do papel da Educação Ambiental na valorização das memórias ambientais e na promoção da consciência crítica sobre o uso do território. Os resultados apontam para a necessidade de ampliar os diálogos entre ambiente, história e educação, favorecendo abordagens integradoras que estimulem a sustentabilidade e a justiça socioambiental no ensino de História e Geografia, além de contribuir para a educação social.


Palavras-chave: formação territorial; História Ambiental; Educação Ambiental; territorialidade; Brasil; educação social.


1. INTRODUÇÃO


A configuração atual do território brasileiro resulta de um processo histórico longo e complexo, marcado pela ocupação, exploração e organização socioeconômica, que envolveram intensas relações entre as populações humanas e os ambientes naturais. Tradicionalmente, a formação territorial do Brasil tem sido analisada a partir das políticas coloniais, econômicas e administrativas, com foco em fronteiras, tratados e dinâmicas mercantilistas. No entanto, o contexto contemporâneo demanda uma abordagem ampliada, que considere as relações socioambientais e revele a história do território a partir da interdisciplinaridade entre História Ambiental, Educação Ambiental e ensino de Geografia e História. A História Ambiental amplia a compreensão histórica para além do foco exclusivamente antropocêntrico e linear, valorizando a análise das complexas interdependências entre fatores históricos, sociais e ecológicos que moldam as dinâmicas ambientais ao longo do tempo. Essa perspectiva possibilita compreender o território como produto de processos socioecológicos imbricados, fundamentando, assim, abordagens integrativas na Educação Ambiental. Dessa forma, o objetivo é analisar os processos históricos que estruturaram o território brasileiro relacionando os marcos da História Ambiental com as potencialidades da Educação Ambiental. Busca-se identificar lacunas que restrinjam a interdisciplinaridade na literatura e apontar caminhos para um ensino crítico e contextualizado da História e Geografia do Brasil. Em vista deste processo reflexivo, a pesquisa pretende contribuir para práticas educativas que reconheçam a diversidade cultural do país, sobretudo no que concerne às memórias e territorialidades dos povos indígenas, bem como às consequências socioambientais da ocupação colonial e contemporânea. Este estudo, de caráter qualitativo, baseia-se na análise documental das fontes textuais disponíveis, com destaque para o capítulo 3 “A formação territorial do Brasil” da obra de Garcia et al. (2022), complementada por referências acadêmicas dos campos da Educação Ambiental e História Ambiental. Ao problematizar os processos históricos e suas implicações ambientais e educativas, espera-se fornecer subsídios para o debate acadêmico e a elaboração de práticas pedagógicas interdisciplinares e integradoras.


2. MÉTODOS


A pesquisa adotou um enfoque qualitativo exploratório a partir de análise documental. O desenho do estudo envolveu a análise crítica e interpretativa de fontes secundárias selecionadas, especialmente do capítulo 3 da obra de Garcia, Martinez e Garcia (2022), aliado a produções acadêmicas nas áreas de História Ambiental e Educação Ambiental, incluindo estudos de Estevam (2013, 2017, 2023) e Estevam, Santos Ferreira e Freitas (2024).


2.1. População e amostra documental

Foram selecionados documentos textuais abrangendo desde descrições históricas da ocupação territorial no Brasil entre os séculos XVI e XXI, a distribuição e práticas culturais dos povos indígenas, até aspectos educativos das memórias ambientais. A amostra procurou abarcar a diversidade das causas e consequências da ocupação do território brasileiro, com uma perspectiva socioambiental interdisciplinar e integrada.


2.2. Instrumentos e procedimentos de coleta

A coleta de dados ocorreu por meio da consulta e análise de livros didáticos de Geografia e História, sobretudo o capítulo 3 de Garcia et al. (2022), complementada pela revisão de artigos reconhecidos na área da Educação Ambiental. Também foram consideradas informações de órgãos oficiais, como a Fundação Nacional do Índio (Funai), bem como dados cartográficos relacionados à demarcação e práticas culturais indígenas.


2.3. Análise dos dados

Aplicou-se a análise de conteúdo qualitativa, com uma leitura interpretativa focada na identificação de categorias temáticas ligadas à formação territorial, interações ambientais e processos educativos. A metodologia privilegiou a triangulação de fontes distintas para construir uma narrativa integrada que articule História Ambiental e Educação Ambiental, permitindo discutir as transformações territoriais ao longo dos diferentes períodos históricos e suas repercussões na educação social e ambiental.


2.4. Considerações éticas

Por se tratar de pesquisa documental com fontes publicadas, não houve contato direto com sujeitos. No entanto, a abordagem adotou respeito à diversidade cultural dos povos indígenas e tradicionais, utilizando uma linguagem inclusiva e contextualizada quanto às nomenclaturas empregadas. No que se refere ao suporte tecnológico, foi utilizada a plataforma de Inteligência Artificial Athenas AI para apoio na revisão textual, detecção de plágio, humanização e escrita inteligente. Esta ferramenta contribuiu especialmente para a organização do corpus, o aprimoramento linguístico e a verificação da originalidade do trabalho. Ressalta-se que seu uso foi ético e complementar ao trabalho do pesquisador, cuja análise crítica e decisões metodológicas permaneceram sob sua responsabilidade, sendo todos os materiais revisados manualmente para garantir precisão e coesão acadêmica em conformidade com as recomendações éticas vigentes na área.


3. RESULTADOS


3.1. O processo histórico da formação territorial brasileira

O território brasileiro tem origem nas ocupações indígenas que antecederam a chegada dos colonizadores portugueses, caracterizadas por uma ampla diversidade cultural, linguística e ambiental (Garcia et al., 2022). Em 1500, esses povos originários viviam de modos sustentáveis, com profundo conhecimento dos ecossistemas regionais, praticando pesca, caça e agricultura de subsistência. A chegada dos colonizadores marcou o início de profundas transformações territoriais, sobretudo pela exploração predatória do pau-brasil na costa atlântica. Embora essa fase inicial tenha sido temporária, já evidenciava os impactos ambientais da ocupação colonial. No século XVI, o estabelecimento do modelo açucareiro no litoral nordestino impulsionou o surgimento dos primeiros centros urbanos, fundamentados em atividades econômicas baseadas no trabalho escravo e na exploração extrativista dos recursos naturais. O Tratado de Tordesilhas e os interesses mercantilistas europeus influenciaram a delimitação territorial oficial, porém a ocupação efetiva ultrapassou essas fronteiras, especialmente a partir do século XVIII, com os ciclos mineradores e a expansão da pecuária para o interior do país.


3.2. Dinâmicas territoriais e ambientais nos séculos XIX, XX e XXI

No século XIX, houve a expansão da cafeicultura e o crescimento populacional no sudeste, semelhantes ao florescimento da exploração da borracha na Amazônia, região que atraiu novas populações e consolidou diversos padrões de ocupação territorial. Nos séculos XX e XXI, os processos acelerados de industrialização, urbanização e avanço da fronteira agropecuária promoveram desmatamento significativo e a transformação rápida das paisagens naturais. Os mapas contemporâneos refletem uma organização territorial marcada por contrastes: áreas urbanas e industrializadas convivem com regiões pouco povoadas e com remanescentes da vegetação nativa. A crescente expansão da monocultura e a substituição dos ecossistemas naturais ressaltam a urgência de uma educação crítica e comprometida com a sustentabilidade.


3.3. O território e as populações indígenas: diversidade, territorialidade e educação

Os povos indígenas constituem um elemento fundamental para compreender a territorialidade brasileira. Sua diversidade cultural, junto a formas específicas de relação com o território — que vão além do aspecto físico, englobando ancestrais espirituais, memória e identidade — exige atenção especial nas práticas educativas (Funai, 2020). Apesar da diminuição populacional histórica e dos conflitos decorrentes da colonização, atualmente cerca de 726 terras indígenas são reconhecidas, abrigando aproximadamente 1,1 milhão de indígenas em diferentes regiões, especialmente na Amazônia (Funai, 2020). O reconhecimento e valorização desses territórios são essenciais para a preservação ambiental e cultural. A Educação Ambiental, articulada à História Ambiental, possui papel estratégico para fortalecer o respeito à diversidade cultural, por meio do ensino de História e Geografia que valoriza narrativas, saberes e memórias indígenas, promovendo práticas educativas inclusivas que enfrentem exclusões e contribuam para a justiça socioambiental.


4. DISCUSSÃO


Os resultados reforçam que a formação territorial do Brasil deve ser compreendida como um fenômeno histórico-ambiental complexo e multifacetado, onde o território se constrói por meio de embates, negociações e adaptações entre sociedades humanas e ambientes naturais. A análise crítica da literatura mostra que, embora haja debates avançados sobre fronteiras políticas e econômicas, a incorporação da História Ambiental no tema ainda é incipiente, sobretudo quando relacionada às práticas e políticas de Educação Ambiental voltadas à formação cidadã. Existem lacunas no tratamento interdisciplinar, principalmente no que diz respeito à interface ensino-aprendizagem que envolve territórios e suas histórias socioambientais. A análise documental revelou lacunas significativas, especialmente no que se refere à investigação empírica das práticas educativas em contextos escolares e comunitários. Isso evidencia a necessidade premente de estudos aprofundados que promovam uma apreciação crítica das memórias ambientais locais e suas repercussões pedagógicas, contribuindo para a construção de abordagens educativas contextualizadas e eficazes. As implicações para a educação social e para os campos da História e Geografia são profundas, visto que a territorialidade deve ser entendida como experiência vivida e construída educacionalmente, e não apenas como referência cartográfica ou política. A Educação Ambiental deve estimular uma compreensão crítica e propositiva, responsabilizando os sujeitos sociais pelos desafios relacionados à sustentabilidade, ao reconhecimento cultural e à equidade territorial. Entre as limitações do estudo, destaca-se a dependência exclusiva de fontes secundárias e a ausência de dados empíricos recentes sobre práticas educacionais diretamente ligadas à História Ambiental e à formação territorial nos contextos escolares. Recomenda-se, portanto, que pesquisas futuras adotem abordagens qualitativas de campo, analisando modalidades pedagógicas, conteúdos curriculares e percepções dos agentes educacionais sobre a territorialidade socioambiental e suas conexões históricas.


5. CONCLUSÃO


Este artigo evidenciou que a formação territorial do Brasil, vista por uma perspectiva integrada da História Ambiental e da Educação Ambiental, não se configura apenas como um processo histórico-político, mas essencialmente como uma construção socioambiental, condicionada por relações intergeracionais, culturais e ecológicas. Ao destacar a diversidade dos povos indígenas e suas territorialidades, bem como as transformações geradas pela colonização e pelos modelos econômicos vigentes, mostrou-se a urgência da incorporação da Educação Ambiental em práticas pedagógicas que promovam consciência crítica sobre o território, sustentabilidade e justiça socioambiental. As contribuições apresentadas indicam que enfrentar os desafios do território brasileiro exige uma educação que articule História, Ambiente e Ciências Humanas, especialmente História e Geografia, promovendo espaços escolares e sociais para reconhecer e valorizar as múltiplas identidades territoriais do país. Além disso, sugere-se aprofundar investigações empíricas sobre o impacto da Educação Ambiental no ensino de Geografia e História com foco no território, a fim de subsidiar políticas educacionais e estratégias pedagógicas que potencializem o engajamento cidadão e o cuidado com o ambiente tanto na dimensão natural quanto na social deste.


6. REFERÊNCIAS


ATHENAS AI. Plataforma de inteligência artificial para apoio à escrita científica. [S.l.]: Athenas AI, 2026. Disponível em: https://www.athenasai.com/ . Acesso em: 11 maio. 2026.


FUNAI - Fundação Nacional do Índio. Povos indígenas: terra é vida. 5. ed. São Paulo: Atual, 2006. Disponível em: https://www.gov.br/funai/pt-br/atuacao/povos-indigenas. Acesso em: 11 maio 2026.


GARCIAS, Valquiria; MARTINEZ, Rogério; GARCIA, Vanessa. SuperAção! Geografia: 7º Ano – Manual do Professor. 1ª ed. São Paulo: Moderna, 2022.


ESTEVAM, Bread Soares. Contribuições da educação ambiental à tecnologia social de enfrentamento à exclusão escolar de crianças e jovens em idade escolar obrigatória. Tese (Doutorado em Educação Ambiental) – Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, 2023.


ESTEVAM, Bread Soares. Da crise ambiental ao despertar da consciência ecológica: diálogos entre a História Ambiental e a Educação Ambiental. Revista do Lhiste, Porto Alegre, n. 6, v. 4, jan./dez. 2017.


ESTEVAM, Bread Soares. História, crítica e a Educação Ambiental sob o prisma das crônicas ecológicas da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural no extremo sul do Brasil (1978-1981). Dissertação (Mestrado em Educação Ambiental) – Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, 2013.


ESTEVAM, Bread Soares; SANTOS FERREIRA, W. L.; FREITAS, A. L. C. de. O emprego da História para edificação de possibilidades teórico-metodológicas ao campo ambiental. REMEA, v. 41, n. 1, p. 341–359, 2024. DOI: https://doi.org/10.14295/remea.v41i1.14539. 


THÉRY, Hervé; MELLO, Neli Aparecida de. Atlas do Brasil: disparidades e dinâmicas do território. São Paulo: Edusp, 2005.


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1 Professor da SMEC/SJN-RS e SEDUC-RS, Mestre/Doutor em Educação Ambiental.

Email: breadestevam@furg.br

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