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quarta-feira, 8 de maio de 2019

Um olhar sobre os 51 anos da Pedagogia do Oprimido e a Contribuição ao Projeto de Doutoramento em Educação Ambiental





Bread Soares Estevam*


De acordo com José Eustáquio Romão no seu texto “Opção radical pelo oprimido” (2008, p. 13), a marca mais impressionante de Paulo Freire, […] “seja pela clarividência epistemológica, seja pela coragem política de seu autor, é o fator de ser, não uma ‘pedagogia para o oprimido’, mas uma ‘pedagogia do oprimido’, […]”. Isto é, Freire tem claro posicionamento pela classe oprimida e constrói seu pensamento a partir da materialidade e da vivência do oprimido. Romão (2008, p. 13) também nos expõe que:

A implicação desta opção é radical, constituindo, no limite, uma verdadeira revolução paradigmática, na medida em que atribui aos dominados uma superioridade científica e epistemológica. Esta superioridade é explicitada na passagem em que Paulo Freire afirma: “Por isto é que somente os oprimidos, libertando-se, podem libertar os opressores. Estes, enquanto classe que oprime, nem libertam, nem se libertam” (Pedagogia do oprimido, 17ª ed., p. 43).

Dentro da lógica dialética e dialógica Paulo Freire lega ao mundo a Pedagogia do Oprimido. Obra que nasceu em um contexto muito específico na década de 1960, num processo de transição de imposição de uma ditadura civil-militar que abate o regime democrático que vinha sendo desenvolvido desde 1945 e finda em 1964 com o golpe e após isso, em 1968, o golpe dentro do golpe com as perdas das liberdades de expressão e a imposição de uma educação positivista militarizada.

Pedagogia do Oprimido está configurada com a seguinte estrutura: Primeiras Palavras; Justificativa da pedagogia do oprimido; A concepção “Bancária” da Educação como instrumento da opressão. Seus pressupostos, sua crítica; A dialogicidade: Essência da Educação como prática da Liberdade; e, A teoria da Ação antidialógica.

Nos citados capítulos Paulo Freire, discute: A contradição opressores-oprimidos. Sua superação; A situação concreta de opressão e os opressores; A situação concreta de opressão e os oprimidos; Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão; A concepção problemaizadora e libertadora da educação. Seus pressupostos; A concepção “bancária” e a contradição educador-educando; Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo; O homem como um ser inconcluso, consciente de sua inconclusão, e seu permanente movimento de busca do ser mais; Educação dialógica e diálogo; O diálogo começa na busca do conteúdo programático; As relações homens-mundo, os temas geradores e o conteúdo programático desta educação; A investigação dos temas geradores e sua metodologia; A significação conscientizadora da investigação dos temas geradores. Os vários momentos da investigação; A teoria da ação antidialógica e suas características: a conquista, dividir para manter a opressão, a manipulação e a invasão cultural; e, A teoria da ação dialógica e suas características: a colaboração, a união, a organização e a síntese cultural.

Para analisar, discutir e compreender escolhi dois temas geradores da obra Pedagogia do Oprimido, que são: “Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão, e, Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”.

Dentro do capítulo "justificativa da Pedagogia do Oprimido", o tema gerador "Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão" podemos enxergar a opção de Freire pelo Oprimido, mas, não uma opção colonizadora e opressora, sim uma opção política enquanto educador um trabalhador da educação, demonstrando a consciência a qual classe pertence e a opção de educação a partir das demandas dos oprimidos.

Sob influências do pensamento de Karl Marx, Paulo Freire nos desenha e configura a sociedade capitalista como uma sociedade de classes, fragmentada, grosso modo, em uma configuração societária caracterizada pela luta entre opressores e oprimidos. Para dissertar sobre esse processo societário Paulo Freire aponta a contradição entre opressores e oprimidos, a situação concreta de opressão e os opressores, e, a situação concreta de opressão e os oprimidos.

Dentro deste processo de análise e compreensão, Paulo Freire chega a ideia de que: Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão. Mas, para que a libertação ocorra Paulo Freire aponta um primeiro aspecto da ação dialógica para a superação da sociedade opressora, que segundo o autor (2016, p. 95) acontece da seguinte maneira:


Somente quando os oprimidos descobrem, nitidamente, o opressor, e se engajam na luta organizada por sua libertação, começam a crer em si mesmos, superando, assim, sua “conivência” com o regime opressor. Se esta descoberta não pode ser feita em nível puramente intelectual, mas da ação, o que nos parece fundamental, é que esta não se cinja a mero ativismo, mas esteja associada a sério empenho de reflexão, para que seja práxis.

Conforme Paulo Freire, quando os oprimidos identificam os opressores começam, assim, a organização para superar o regime o opressor. A descoberta para Freire, pode ser intelectual, mas, que seja orientada pela práxis. A práxis coletiva, nesse sentido, é o caminho para libertação do tanto de opressor quanto do oprimido, pelo oprimido. Por isso Freire constrói o seu pensamento optando pelo oprimido, que para ele é o único sujeito histórico com vocação e função de libertação e emancipação societária.

De acordo com Paulo Freire (2016, p. 96): […], “é que a práxis constitui a razão nova da consciência oprimida e que a revolução, que inaugura o momento histórico desta razão, não possa encontrar viabilidade fora dos níveis da consciência oprimida”. Ainda citando Freire (2016, p. 96), “[…] é preciso que creiamos nos homens oprimidos. Que os vejamos como capazes de pensar certo também”. Paulo Freire mais uma vez reforça o pacto e o laço político com os “esfarrapados do mundo”.

Já o capítulo “A concepção ‘bancária’ da educação como instrumento da opressão. Seus Pressupostos e sua crítica”, o tema gerador “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo: os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” se configura na mesma lógica do tema gerador anteriormente explícito.

Nesse sentido, a concepção freireana de educação está pautada na materialidade e na vivência educativa do oprimido. A educação popular, dessa maneira, é uma concepção totalizadora de educação, já que, engloba escola, família e comunidade entre os temas geradores. O método Paulo Freire a partir da educação popular e dos círculos de cultura tem o objetivo de desenvolver educando-educador pautado no diálogo entre os sujeitos da educação. O educador popular surgiu como o mediador dos grupos de convivência e fortalecimento de vínculos, ou seja, os círculos de cultura. Através desses círculos de cultura se buscava/busca a educação/libertação dos oprimidos e a transformação societária opressora em uma sociedade liberta da opressão.

Paulo Freire inaugurou uma outra forma de educação “a popular” e lança as bases para uma educação social e uma educação ambiental popular e libertadora, ou seja, uma educação politizada e política. Essa educação popular e libertadora nasceu nas zonas social e ambientalmente vulneráveis. Já a própria palavra “popular” indica a posição política e de classe na qual esse tipo de educação tem como objetivo. Segundo Paulo Freire (2016, p 121), […], a “educação problematizadora se faz, assim, um esforço permanente através do qual os homens vão percebendo, criticamente, como estão sendo no mundo com que e em que se acham”. Ainda conforme Freire (2016, p. 121), se, “de fato, não é possível entendê-los fora de suas relações dialéticas com o mundo, se estas existem independentemente de se eles as percebem ou não, e independentemente de como as percebem, é verdade também que a sua forma de atuar, sendo esta ou aquela, é função, em grande parte, como se percebam no mundo”.

Nesse sentido, particularmente, a opção pelos oprimidos começam lá em meados de 2003 na graduação em História realizada na FURG. Onde, eu me proponho a estudar e entender Marx já desde o primeiro ano de graduação. Marx nos lega uma obra monumental baseada numa visão de mundo dialética e claramente de posicionamento político pelo proletariado. Tanto que esteve presente na Primeira Internacional Socialista e a influenciou de forma decisiva. A obra de Karl Marx influenciou pensadores do mundo interior, inclusive um nordestino/brasileiro chamado Paulo Freire. Paulo Freire busca nos escritos de Marx entender a configuração da sociedade capitalista, eu particularmente, busco isso, entender as bases e desenvolvimento da sociedade capitalista.

Não a muito tempo atrás iniciei a licenciatura em História onde vou ter um contato muito incipiente com a obra de Paulo Freire, mas, não dei a devida importância. Porém, quando fiz seleção ao doutorado no Programa de Pós-graduação em Educação Ambiental da Universidade Federal do Rio Grande, foi sugerido pela banca avaliadora que eu lesse e utilizasse a obra de Paulo Freire e a educação popular para embasar meu projeto. A banca entendeu meu trabalho como uma pesquisa de educação popular, pois havia claramente nas linhas e entrelinhas do projeto uma educação de opção e viés popular, isso de forma intuitiva. Isto é, construímos o projeto tendo como referência a prática enquanto Educador Social tanto na Cidadania e Assistência Social quanto na Educação. O trabalho do educador social enquanto desenvolvido na assistência social, se configura em suas características e práticas como os círculos de cultura da educação popular freireana. O que Paulo Freire chamou de círculos de cultura, a educação social convenciona a chamar de grupos de convivência e fortalecimento de vínculos. 

No que se refere ao fenômeno de pesquisa proposto para a tese, ou seja, a relação da Busca Ativa Escolar com a Educação Ambiental Popular na Formação de Educadores Escolares e Educadores Comunitários para a Garantia do Direito a Educação, convenciona-se na práxis da educação popular de Paulo Freire. O que entendi da Pedagogia do Oprimido e sua importância é que a escolha pelo popular implica na unificação dos espaços educativos formal, não formal e informal que transitam os oprimidos. Sem a conexão desses lugares educativos a educação do oprimido se transforma em pedagogia “bancária”, ou seja, se a escola não se abre para a comunidade e não trabalha de forma intersetorial, ela nada mais é que uma escola “bancária”, ainda mais no contexto atual dos “pacotes de educação” impostos pela Base Nacional Comum Curricular, Referencial Curricular Gaúcho e os Referenciais Curriculares Municipais. Longe disso, a educação ambiental popular nos propõe, partindo do pensamento Freireano, ampliar o conceito de educação descentralizando-o da escola e criando a possibilidade de uma educação integral e integradora.

A partir da Pedagogia do Oprimido a opção política pelo oprimido implica em propor outro modelo de educação que não esse ainda em vigor, ou seja, a educação positivista e bancária ainda calcada em um calendário letivo escolar tendo como referência as datas comemorativas. Pensar uma educação a partir do viés do oprimido implica sair das secretarias de educação e das universidades e pisar no chão das comunidades, conversar com as comunidades oprimidas e construir a partir dos saberes dessas comunidades.

Algumas perguntas emergem da leitura de Pedagogia do Oprimido, são elas:
1) Quem melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora (Pedagogia do Oprimido)?
2) Quem sentirá, melhor que eles, os efeitos da opressão (Pedagogia do Oprimido)?
3) Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade da libertação (Pedagogia do Oprimido)?
4) Quem melhor que os vulneráveis social e ambientalmente, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade excludente (pergunta minha)?
5) Quem sentirá, melhor que os vulneráveis social e ambientalmente, os efeitos dessas vulnerabilidades (pergunta minha)?
6) Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade de uma educação que inclua e emancipe?

São perguntas apontadas nas reflexões após ler os textos da disciplina, Pedagogia do Oprimido e diálogos em sala de aula e que procurarei responder ou pelo menos apontar algumas respostas através dos passos da pesquisa. Mas, de tudo isso, uma coisa é certa, Pedagogia do Oprimido nos lega uma herança de luta pelo oprimido, e nos reforça a identidade de classe social oprimida, enquanto professores e educadores sociais assalariados membros da classe trabalhadora. Pedagogia do oprimido é pedagogia que fala e luta pela classe trabalhadora oprimida, isto é, professores e educadores sociais. Mas, percebo que quanto mais se cita Freire nas secretaria de educação e na academia, menos se pratica a educação popular. Educação popular é aquela praticada nas comunidades pelos educadores sociais, onde existe a imersão nas casas das famílias, o mapeamento das vulnerabilidades e a educação dos grupos de convivência e fortalecimentos de vínculos. Nas escolas que abrem seus portões para o acesso das famílias das comunidades. Educação popular ocorre na universidade através dos projetos de extensão nas comunidades vulneráveis, é a opção do educador social e do educador escolar pelo pobre, pela emancipação do oprimido, Pedagogia do Oprimido nos lega a experiência e as ideias do educador Paulo Freire e sua opção e exemplo dedicados pelos “esfarrapados do mundo”. Quem não compreende Freire, demoniza Freire!


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*Atuo profissionalmente como Professor de História na Prefeitura Municipal de São José do Norte e como Educador Social na Prefeitura Municipal do Rio Grande (Estado do Rio Grande do Sul). Formação acadêmica: História Bacharelado (FURG); Especialização em Educação Ambiental (SENAC); Mestrado em Educação Ambiental (FURG); Licenciatura em História (UNOPAR); e, doutorando em Educação Ambiental (PPGEA - FURG).