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AUDIMA

quinta-feira, 20 de junho de 2019

PRÁTICAS EDUCATIVAS NO ENSINO FORMAL INSPIRADAS NA OBRA DE PAULO FREIRE




*Bread Soares Estevam


A partir do vídeo “Teatro de bonecos” e do livro “Pedagogia da Esperança” me inspirei para escrever o presente texto. Para fazer a análise do diálogo escolhi os sujeitos históricos “camponeses”, ou seja, trabalhadores do campo. Primeiro, por lecionar em uma escola localizada na zona rural de São José do Norte. Segundo, por que camponeses são trabalhadores que produzem uma das condições básicas para a vida humana sobreviver, ou seja, alimentação. A comunidade estudantil que leciono é um lugarejo, chamado Barranco, que sobrevive da agricultura e da pesca. Com a intenção de me utilizar das fontes citadas acima para pensar a minha própria práxis enquanto educador que se utiliza de algumas diretrizes metodológicas freireanas para desenvolver o processo de ensino-aprendizagem com quatro turmas de anos finais, isto é, de sexto a nono ano do ensino fundamental.

Utilizo uma metodologia de ensino semelhante ao que Paulo Freire denominou de “Círculos de Cultura”. Isto é, os alunos sentam-se com suas carteiras dispostas em círculo para realizar “leitura dialogada” de resumos elaborados previamente por eles em casa. Os temas dos resumos obedecem um conteúdo programático pré-definido pela secretaria de educação do município. Para manter organização e ordem nas leituras dialogadas, utilizo o “objeto da fala”, ou seja, uma coruja de pano que os próprios alunos batizaram de Jucilei Jr e até o fizerem certidão de nascimento. Esta metodologia foi apresentada no início do ano e votada, sendo acatada por praticamente 95% dos alunos de sexto a nono anos da escola onde leciono a disciplina de História. Para manter a ordem e a autoridade em sala de aula, construí junto com os alunos que “só se expressaria através da fala” o aluno que estivesse com o “objeto da fala”, quase 99% dos discentes concordaram com esta regra. Depois de explicada a metodologia de ensino-aprendizagem, foi votado democraticamente com as turmas para implementação da metodologia de trabalho e 99% dos discentes aprovaram.

Assim, iniciei a sequência de estudos dando folha para escrita dos resumos e dos diários pessoais de relato de experiências estudantis, isto é, os alunos são estimulados a relataram, brevemente, suas práticas pedagógicas em sala de aula conjuntamente a ler e escrever sobre os conteúdos de História. Particularmente, entendo que esse método de ensino permite ao aluno entender o conteúdo e a exercitar a escrita. Também, intenciona trabalhar a responsabilidade, já que, é necessário trazer os resumos e diários para as aulas para fazerem leitura dialogada. Dentro deste método de ensino, procuro trabalhar conteúdos voltados a realidade da comunidade estudantil, isto é, temáticas que ajudam a pensar o modo de vida da comunidade pesqueira e da zona rural, em detrimento da zona urbana. Assim, desenvolvo nos alunos um entendimento sobre o lugar e o pertencimento ao lugar onde eles vivem.

A comunidade do Barranco é um lugar de pequenas propriedades agrícolas que se localiza a beira da Laguna dos Patos. Lá na praia do Barranco existe uma vila de pescadores que tiram seu sustento do mar pescando. Como podemos notar, ambos os agentes pequenos agricultores e pescadores tiram seu sustento da natureza. São trabalhadores que estão em interação direta com o ambiente natural através da produção agrícola e da extração do pescado da Laguna. Mas, qual é a relação da minha prática com a “Pedagogia da Esperança”? Respondo chamando Paulo Freire para a conversa.

Como expõe Paulo Freire (1992, p. 83):

Daquela primeira visita ao Caribe houve um ponto que me impressionou muito. A experiência que visitei na linda e pequenina ilha de Dominica, moradores de uma fazenda, núcleo de produção agrícola, que entrara em crise, os camponeses haviam conseguido do governo que a desapropriasse – o que, segundo me disseram, interessava também à empresa britânica que a explorava – e a entregasse a eles que, em n anos, pagariam por ela.

Esta passagem escrita por Freire nos remete ao atual contexto de São José do Norte. O município a pouco tempo viveu a expansão da indústria madeireira e da resina, isto é, muitas propriedades rurais se tornaram campos de plantio do pinho. Com isso, grandes empresas produtoras de resina e de madeira começaram a arrendar os campos daquelas pequenas propriedades para o plantio do pinho

Assim, as comunidades nortenses produtoras de gêneros alimentícios agrícolas e pecuários passaram a produtoras dos chamados “desertos verdes”. Paralelo aos “desertos verdes”, o município também recebeu a indústria naval e suas heranças, assim como o município vizinho Rio Grande. Com o fomento do polo naval nortense veio atividades lícitas e ilícitas, exemplo das últimas o tráfico de entorpecentes e com isso aumentou a criminalidade nas zonas urbanas. Outro mote empresarial que andava especulando as possibilidades de se instalarem em São José do Norte é o setor minerador, como todo seu impacto ambiental, que sabemos pelos exemplos brasileiros das cidades de Mariana e Brumadinho. Mas, chamo Freire a relatar a sua experiência rural.

Conforme Paulo Freire (1992, p. 84):

Há um aspecto de caráter pessoal que eu gostaria de tornar público neste livro, uma experiência que vivi e de que falei a meus filhos na volta a Genebra. Fui hospedado pelo presidente da cooperativa que gerenciava a vida econômica, social e educativa da fazenda. Ele morava com sua mulher, sem filhos, numa casa simplíssima, sem luz elétrica, numa elevação, numa espécie de morro, como dizemos no Brasil. Em frente a casa, uma frondosa mangueira, alguns arbustos, uma grama verde.

Ressalto que a experiência vivida por Freire foi relatada em 1992 no livro Pedagogia da Esperança, e a experiência vivida por mim, acontece no ano de 2019. Nesse sentido, a comunidade do Barranco já dispõe de luz elétrica, e até mesmo acesso à internet, mas, igual ao lugar que Freire esteve, o Barranco é parte da zona rural. Mas, o que tem de semelhança na experiência de Freire e na minha? Comunidade rural que vive da produção agrícola, isto é, que depende da natureza para sobreviver. Também, o sujeito histórico agricultor/camponês, no meu caso acrescento o pescador. Outra semelhança é o assédio de grandes empresas ao contexto rural querendo se utilizar dos ambientes naturais para acumularem seus lucros. Posso citar mais algumas semelhanças da experiência e escolhas de Freire com as minhas, isto é, tanto Paulo Freire quanto eu, leciono para a classe trabalhadora e temos uma escolha política por esta classe. Nesse sentido, as leituras das obras de Freire despertam em mim alguns direcionamentos. O primeiro já citado, a escolha pelo projeto político progressista de educação, segundo, a metodologia de ensino baseada no diálogo, terceiro, a escolha da construção do processo de ensino-aprendizagem pela via democrática.

Outra situação que deve ser ressaltada é que procuro sempre estimular o aluno entender o seu lugar no mundo, isto é, localizo ele na classe social a qual este discente pertence. Na sua maioria alunos de escola pública são filhos da classe trabalhadora. Freire aponta que na sua visita a fazenda em Genebra encontra e dialoga com o presidente da cooperativa agrícola, ou seja, um trabalhador cooperativado. Noto na comunidade do Barranco uma cooperação entre seus habitantes, mas, não um sistema de cooperativa para produção.

Outro aspecto relevante é que trabalho sobre a lógica da luta de classes para entender o processo histórico. Ou seja, Freire nos diz que a luta de classes não é o único motor da história, mas, ela é um dos motores impulsionadores do processo histórico, concordo plenamente com ele, pois existem outros motores que movimentam e transformam a história. Mas, nessa lógica o interessante é que Freire nos apontam que a luta entre opressores e oprimidos se estendem a qualquer instância, e o campo tem variações dessa luta. O que enxergo é que este movimento é orientado sempre pelos movimentos sociais de dominação e resistência. Freire na sua obra nos aponta as lutas do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra e o entendimento distorcido que se tem desse movimento de resistência. Na minha prática não enxergo o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra na localidade do Barranco, até mesmo, por que este lugarejo é composto de pequenas propriedades rurais, mas, como é necessário se pensar o processo histórico sob o olhar do oprimido, conforme Freire, então trabalho refletindo sobre todos os movimentos sociais ocorridos na história, inclusive o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra.

Voltando no diálogo com Paulo Freire, ele diz que (1992, p. 84), foi “muito bom para mim conviver não só com o casal, mas, com os camponeses em geral. Foi muito bom sobretudo observar como trabalhavam a questão da educação, da cultura, da formação técnica, eles e seus companheiros de cooperativa”. Vos digo que para eu, está sendo uma experiência ímpar conviver com os alunos da escola onde leciono, ou seja, a experiência de confrontar duas visões de mundo, a rural dos alunos e a minha a urbana, é uma vivência enriquecedora. Dessa maneira, tenho a oportunidade exercitar a pedagogia dialógica para entender o contexto da zona rural através do conhecimento dos alunos e eles compreender o contexto da zona urbana através do meu olhar de citadino. Experiência rica tanto a de Paulo Freire com os camponeses de Genebra, na qual, fizeram-lhe pensar os limites da vida no campo em 1992 e a minha com os alunos do Barranco, que vejo um campo dentro de alguns limites conectado com a cidade através da internet.

Portanto, chego a conclusão que por mais que digam que a obra de Paulo Freire seja criticada e por muitos até tida como ultrapassada, vejo ao contrário. Num contexto onde as liberdades democráticas do livre pensar do oprimido começam a ser questionadas e colocados em xeque, onde o que prevalece é um pensamento elitista e que privilegia um projeto de sociedade que beneficia os grandes proprietários e as grandes empresas, entender e pertencer ao lugar é uma forma de resistência. A ética e o método freireano ainda é pertinente para isso, por que se baseia numa percepção de mundo que organiza a sociedade em classes sociais mas não limita a leitura só nas classes, que enxerga além das classes sociais e que apontam que somente a leitura dialogada de mundo pode construir alternativas de visão de mundo e de resistência frente ao avanço da opressão de um projeto societário elitista. Enfim, Freire nos aponta questões, conceitos e métodos ainda muito pertinentes para ler a realidade da sociedade e da educação e poder sugerir através de uma visão dialética um movimento dialógico de educação para conscientizar o oprimido a se libertar e automaticamente libertar o opressor. Descarto tudo aquilo que coloca Paulo Freire no limbo e ressalto que não é atoa que ele é o terceiro pensador mais citado no mundo, na qual nunca deveria ter sido levantada a hipótese de tirar dele o título de patrono da educação brasileira. Paulo Freire é um clássico e sempre será atual.

REFERÊNCIAS

FREIRE, Paulo. 1921 – 1997. Pedagogia da Esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido / Paulo Freire ; prefácio de Leonardo Boff; notas de Ana Maria Araújo Freire. - 21ª ed. - São Paulo: Paz e Terra, 2014.


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*Atuo profissionalmente no setor público como Professor Historiador e Educador Social. Formação Acadêmica: História Bacharelado FURG; Especialização em Educação Ambiental SENAC; Mestrado em Educação Ambiental FURG; Licenciatura em História UNOPAR. Estou doutorando em Educação Ambiental FURG. Email: breadestevam@furg.br